Exposição de Arte Ornamental

Description level
Fonds Fonds
Reference code
PT/MNAA/EAO
Title type
Atribuído
Parallel title
Comissão Organizadora da Exposição de Arte Ornamental Portuguesa e Espanhola
Date range
1881 Date is uncertain to 1891 Date is uncertain
Dimension and support
13 u.i. (11 livros; 2 dossiers); 32 cm de área linear; Papel
Biography or history
A Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental Portugueza e Hespanhola, realizada em Lisboa, em 1882, foi um evento cultural de incontornável importância para Portugal. Não apenas por dela ter nascido, o primeiro grande museu nacional que Lisboa vinha reclamando havia décadas — o então nomeado Museu Nacional de Bellas Artes e Archeologia (1884), mais tarde redefinido e renomeado pela legislação republicana como Museu Nacional de Arte Antiga (1911) — mas, sobretudo, porque constituiu um marco na identificação, estudo e protecção do património móvel nacional. Para que esse tão desejado objectivo se concretizasse foi de suma importância o papel assumido pela fotografia.

Originalmente organizada em Londres, em 1881, envolveu várias equipas de investigadores e amadores de arte dos três principais países compreendidos (Inglaterra, Espanha e Portugal) e ainda de outras nações coleccionadoras dos produtos das artes ornamentais peninsulares.

Em Portugal, fora nomeada, por ofício de Hintze Ribeiro de 5 de Abril de 1881, uma comissão organizadora presidida por D. Fernando II e da qual ficavam directamente responsáveis o vice-inspector da Academia de Belas Artes Delfim Guedes (1842-1895), o médico e arqueólogo Augusto Filippe Simões (1835-1884), o médico e numismata Augusto Carlos Teixeira de Aragão (1823-1903), o arquitecto, pintor e professor, director da Academia de Belas Artes, António Thomas da Fonseca (1822-1894), o escritor e investigador histórico Ignácio de Vilhena Barbosa (1811-1890) e o arquitecto José Luís Monteiro (1849-1942). A estes unir-se-iam ainda os esforços (com nomeação oficial posterior) de o investigador Francisco Marques de Sousa Viterbo (1845-1910) e o pintor e arquitecto Alfredo de Andrade (1839-1915), além do publicista Rangel de Lima (1839-1909).

O trabalho levado a cabo, por cada uma das comissões convocadas para a exposição de Londres, foi contudo bastante diferenciado entre si, evidenciando o processo o estado em que se encontravam os conhecimentos das artes e da herança patrimonial em cada um dos países convidados. O objectivo principal, proposto pela organização londrina na pessoa de John Charles Robinson (1824-1913), historiador, crítico e conservador do South Kensington Museum, então uma instituição museal de créditos firmados não apenas em Londres mas internacionalmente, era a superação do grau elementar de conhecimento em relação às artes ornamentais peninsulares, em particular as portuguesas, então escassamente estudadas. Após alguns meses de intenso trabalho, foi inaugurada, a Special Loan Exhibition of Spanish and Portuguese Ornamental Art. Era o dia 10 de Junho de 1881.

Embora tendo nascido desse estímulo exterior, a mostra lisboeta — que cedo começou também a ser pensada e organizada e que viria a ser inaugurada a 12 de Janeiro de 1882, no arrendado e adaptado Palácio Alvor, sito às Janelas Verdes, encerrando as suas portas a 20 de Junho desse mesmo ano — não apenas mostrou mais e melhores peças das melhores colecções públicas (e régias) ibéricas e de inúmeros coleccionadores privados, como chamou a si a responsabilidade da identificação positiva de um corpus patrimonial que urgia inventariar e catalogar, para evitar ou diminuir os riscos de alienação ou destruição a que estava sujeito.

Por não haver ainda, como vimos, museu nacional, instituição que havia muito se reclamava em Portugal e que prosseguia sem concretização à vista, apesar do arrendamento, em 1879, do Palácio Alvor, a oportunidade da exposição Londrina e depois da Lisboeta sustentou o sonho da sua materialização. Ou seja, ambas as exposições serviram para demonstrar à saciedade a existência de tesouros artísticos suficientes, capazes não só de representar dignamente Portugal no estrangeiro, como também de contribuir para a constituição de um grande museu nacional. E demonstraram, igualmente, que essa abundância e qualidade eram suficientes para temer a sua perda e justificar a sua inventariação e estudo.

Não bastava, contudo, defender que o momento era ideal para a efectivação desse sonho antigo, mas provar que o mesmo era não apenas realizável como imperativo. No primeiro caso, toda a encenação, campanha de divulgação dos trabalhos e organização da exposição de Lisboa souberam criar as condições para que o sucesso fosse assegurado e o museu fosse enfim instituído. No segundo caso, havia também que provar, para lá de qualquer dúvida, que o património artístico envolvido era, de facto, da maior relevância. De molde a garantir, como já foi referido, não só a sua identificação inequívoca (elemento definidor da sua natureza — material e artística — e dissuasor da sua destruição e/ou alienação) como a sua qualidade e memória, foram encomendadas gravuras para o catálogo (da autoria do artista castelhano radicado em Portugal Enrique Casanova) e um muito significativo corpo de documentação fotográfica.

Neste último caso, a encomenda recaiu sobre o fotográfo Carlos Relvas (1838-1894), personalidade eclética (político, inventor e músico, além de desportista), cuja fortuna familiar lhe permitia dedicar-se também à fotografia, alimentando o olhar em inúmeras viagens que faz pela Europa.

Em Fevereiro de 1882, Carlos Relvas aceita o convite da comissão, dispondo então do tempo de duração da exposição para registar fotograficamente as peças consideradas mais significativas e cuja dispersão, após o encerramento da mostra, se temia pela oportunidade perdida para o seu estudo.

Em 1883, o catálogo de imagens — Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental em Lisboa. 1882. Album de Phototypias a beneficio da Santa Casa da Misericordia da Gollegã. Clichés de Carlos Relvas e Phototypo de J. Leipold. Lisboa: s.n., 1883 — baseadas em clichés do fotógrafo Carlos Relvas é dado à estampa. Documento perene, era claramente apresentado como a memória da exposição. Tal como afirmara Augusto Filipe Simões no prefácio escrito para a obra, a fotografia impunha-se como memória e protecção dos bens nacionais, eloquente testemunho do património móvel já inventariado e presente na exposição mas entretanto desmembrado e devolvido aos seus proprietários. Esclarecia-se ainda a importância do documento fotográfico para a possibilidade de confronto das peças, algo que a própria montagem da exposição tantas vezes tornava impossível pela colocação espacial das obras. Assumia, portanto, um papel facultador do estudo, documento de memória que inseria o país na modernidade, no progresso, e na compreensão do valor do património para a identidade nacional.

De acordo com o referido por José Relvas na mesma publicação, Carlos Relvas realizara mais de quinhentos clichés, “reproduzindo objectos isolados, e outros que por sua natureza e sem prejuízo da reprodução se prestavam ao agrupamento.” (In Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental em Lisboa. 1882. Album de Phototypias a beneficio da Santa Casa da Misericordia da Gollegã. Clichés de Carlos Relvas e Phototypo de J. Leipold. Lisboa: s.n., 1883, p. 6.)

O projecto, que foi também mais um dos mais significativos marcos da Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental Portuguesa e Espanhola, constituindo-se como uma novidade de imensa importância documental, no qual ficaram registadas as principais obras patentes na exposição e até o aspecto de algumas salas — constituindo-se, portanto, como memória do espaço, importante testemunho das opções expositivas. Incontornável fonte de informação visual, obviou ao esquecimento e contribuiu para o conhecimento de aspectos das obras que não poderiam de outro modo ser documentadas, por mais completas que fossem as descrições. Foi ainda a primeira vez que algumas das mais emblemáticas obras do nosso património móvel foram alvo de interesse fotográfico.



Texto: Emília Ferreirra

Custodial history
Este Fundo integra o Arquivo do Museu Nacional de Arte Antiga, tendo acompanhado a história administrativa e tutelar do mesmo.
Scope and content
Este Fundo caracteriza-se por documentação relacionada com a organização da Exposição de Arte Ornamental Portuguesa e Espanhola. Composto essencialmente por livros de registo de objectos destinados à Exposição, bem como um vasto grupo de fichas de empréstimo das peças, esta documentação reflecte todo o processo de selecção e recolha de objectos por todo o território nacional, resultante do empréstimo de particulares e instituições (religiosas ou laicas).
Documental typology
Livros; Caixas
Arrangement
Temática
Access restrictions
Os pedidos de consulta dos originais deverão ser dirigidos ao Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA).
Language of the material
Português; Espanhol; Francês
Physical characteristics and technical requirements
Regular
Other finding aid
Mesquita, Maria Gabriela M., Machado, Maria João, "Sala de Inventário: arrumação da documentação", MNAA, Dezembro 2004;



Pontes, Teresa, "Museologia da Arte – Conceitos e Práticas de José de Figueiredo" (Anexo Documental) [texto policopiado]. FCSH, Lisboa, 1999
Location of originals
Museu Nacional de Arte Antiga
Related material
Arquivo José de Figueiredo, MNAA – Caixa 2 PT/MNAA/AJF/Cx2



Academia Nacional de Belas-Artes de Lisboa – PT/MNAA/ANBA



Ministério das Finanças, Direcção Geral da Fazenda Pública, 4ª Rep. – Património – PT/TT/MF-DGFP/E



Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, Correspondência relativa a Exposições e Congressos – PT/TT/MOPCI-DGA/A-A/11
Publication notes
Ferreira, Emília, “Lisboa em Festa: A Exposição de Arte Ornamental Portuguesa e Espanhola, 1882. Antecedentes e Materialização.” Dissertação de doutoramento em História da Arte Contemporânea, Lisboa: FCSH – UNL, 2010
Leandro, Sandra, “A Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental Portugueza e Hespanhola – 1882. A Encenação de um espaço”, UNL – FCSH, Julho de 1997
Pontes, Teresa, "Museologia da Arte – Conceitos e Práticas de José de Figueiredo" (Anexo Documental) [texto policopiado]. FCSH, Lisboa, 1999
Notes
Documentação tratada, digitalizada e disponibilizada ao abrigo dos Protocolos:

1. Protocolo de Colaboração entre a “Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, através da Linha de Museum Studies do Instituto de História da Arte” e o Instituto dos Museus e da Conservação, I.P.”, firmado a 5 de Novembro de 2009.

2. Protocolo de Colaboração entre o Instituto dos Museus e da Conservação, I.P., e a Direcção-Geral de Arquivos para a digitalização dos documentos do projecto “Fontes para a História dos Museus em Portugal”, firmado em Outubro de 2011.



Projecto “Fontes para a História dos Museus em Portugal” financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia - FCT (2010-2013).